Tema

Tema geral

Tendo como referência o tema do 27º Congresso Mundial de Arquitetos, “Todos os mundos. Um só mundo. Arquitetura 21”, o ArquiMemória 5 adota como tema central “O global, o nacional e o local na preservação do patrimônio”.

O mundo se caracteriza hoje por intensos e contínuos fluxos de investimentos, mercadorias, pessoas, ideias e informações, que podem ser observados em fenômenos tão distintos quanto as migrações internacionais, a produção imobiliária ou a expansão das multinacionais globais. Como reação à globalização e também mediante o discurso da perda dos valores e tradições locais, observa-se, nos últimos anos, o crescimento de medidas econômicas protecionistas e de políticas nacionalistas, na contracorrente das décadas anteriores, quando se constituíram e fortaleceram, por exemplo, blocos econômicos como o Mercosul e a União Europeia.

Especificamente no campo da preservação do patrimônio edificado, essas trocas e fluxos mundiais se refletem em diversos processos, como a circulação de profissionais, que atuam simultaneamente em diversos países e contextos culturais, ou a adoção, em países emergentes e periféricos, de teorias, tecnologias e modelos de gestão e intervenção no espaço urbano e no patrimônio desenvolvidos nos países centrais, muitas vezes de forma acrítica.

Do mesmo modo, estratégias de intervenção e normas de preservação são aplicadas, indistintamente, para a proteção de bens culturais em grandes metrópoles, em pequenas aglomerações ou mesmo em áreas rurais e em contextos caracterizados por variados níveis de regulação ou de informalidade. Conceitos consolidados ao longo do século XX, como “valor universal excepcional” e “patrimônio nacional”, são confrontados, cotidianamente, com discursos que defendem os valores locais e a participação das comunidades diretamente envolvidas com os bens salvaguardados.

A atualidade e pertinência do tema é reforçada pela recente divulgação do resultado do Prêmio Pritzker 2017, atribuído aos arquitetos espanhóis Rafael Aranda, Carme Pigem e Ramon Vilalta. No seu parecer, o júri do Prêmio registrou que “o que os destaca é a sua abordagem, que cria edifícios e lugares que são, ao mesmo tempo, locais e universais” e que sua obra “nos ajuda a ver, da forma mais bela e poética, que a resposta à questão [da globalização] não é ‘isso ou aquilo’, e que nós  podemos, pelos menos na arquitetura, almejar ambos; nossas raízes firmemente ancoradas no lugar e nossos braços estendidos, abraçando o resto do mundo.”

Eixos temáticos

No âmbito do ArquiMemória 5, a relação entre global, nacional e local na preservação do patrimônio edificado será abordada a partir de três diferentes eixos temáticos:

  1. A CIRCULAÇÃO DE CONCEITOS E TEORIAS

Como as teorias da conservação e da restauração produzidas nos países centrais vêm sendo difundidas e apropriadas nos países emergentes e periféricos? Como elas se adaptam aos diversos contextos culturais específicos em que são adotadas? Que conceitos ou teorias, no campo da conservação e da restauração do patrimônio edificado, vêm sendo concebidos e desenvolvidos nos países emergentes e periféricos?

Como conceitos como “autenticidade” e “integridade”, dentre outros, vêm sendo ressignificados para adequar-se à diversidade cultural dos contextos em que são adotados? Como o rechaço à “reconstrução”, consolidado nos países centrais e nos organismos internacionais no Segundo Pós-Guerra e difundido mundialmente, vem sendo revisto em diversos contextos e até mesmo por instituições como a Unesco, frente às fortes demandas sociais pela reconstrução de monumentos e sítios destruídos, especialmente em países periféricos e emergentes?

Como, historicamente, conceitos como “valor universal excepcional” contribuíram na constituição da Lista do Patrimônio Mundial da Unesco e conceitos como “patrimônio nacional” contribuíram na constituição do acervo de bens tombados pelo IPHAN? Quais os limites destes conceitos frente à valorização da diversidade cultural? Como a emergência de bens patrimoniais transnacionais e novas categorias como “paisagem cultural” e “itinerário cultural” se inserem neste contexto de globalização?

Como a globalização e, por outro lado, a valorização das identidades nacionais e locais vêm contribuindo na constituição de novas categorias de bens patrimoniais? Como a arquitetura, o urbanismo e o paisagismo modernos e os bens do patrimônio industrial, dentre outros bens culturais produzidos a partir da globalização dos séculos XIX e XX, vêm sendo preservados? Como a preservação da arquitetura vernacular e do patrimônio edificado vinculado às minorias étnicas e culturais se insere neste processo? Como os conceitos e práticas adotados na preservação do patrimônio cultural imaterial podem contribuir para a preservação no patrimônio cultural material na contemporaneidade?

 

  1. INSTITUIÇÕES E SOCIEDADE: GLOBAL, NACIONAL E LOCAL

Como estratégias como “requalificação”, “revitalização”, “reabilitação”, “reciclagem” de monumentos e sítios urbanos de valor cultural vêm sendo adotados, muitas vezes indistintamente, em contextos culturais diversos? Como essas estratégias promovem, direta ou indiretamente, processos denominados de “gentrificação”? Como a globalização e a financeirização vêm influenciando nestes processos? Como os projetos de intervenção em sítios de valor cultural vêm equacionando as demandas locais (por exemplo, a habitação e o comércio de conveniência) e aquelas globais (por exemplo, o turismo)? Quais os impactos econômicos, sociais e culturais, positivos e negativos, do turismo nos monumentos e sítios de valor cultural? Como os megaeventos, por exemplo, vêm impactando os sítios de valor cultural?

Como determinados modelos de planejamento, intervenção e gestão de monumentos e sítios de valor cultural vêm se difundindo globalmente? Qual o papel que os organismos internacionais e as agências cooperação sediados nos países centrais tiveram no processo de difusão desses modelos em países emergentes e periféricos?

Qual vêm sendo o papel das instituições regionais e locais, da sociedade civil organizadas e das comunidades na identificação, conservação e gestão do patrimônio edificado? Qual o papel da educação patrimonial na sensibilização das comunidades locais para a importância da preservação do patrimônio cultural?

Como as comunidades e os movimentos sociais organizados têm influenciado nas transformações das políticas públicas e estratégias de intervenção no patrimônio? Como as comunidades locais, em diferentes contextos, vêm respondendo aos processos de patrimonialização? Como normas, leis e modelos de planejamento, gestão e intervenção rígidos e processos burocráticos rigorosamente controlados pelo Estado lidam com realidades caracterizadas pela informalidade, como em diversos centros históricos latino-americanos?

 

  1. PROJETO E TECNOLOGIA: FORMAÇÃO E PRÁTICA

Em um mundo globalizado, quais os desafios projetuais do arquiteto ao atuar em contextos culturais tão distintos? Qual o papel do arquiteto na constituição do patrimônio do futuro?

Como a globalização vêm resultando na circulação internacional de novos materiais e técnicas voltados à conservação e restauração do patrimônio edificado?  Como esses materiais e técnicas “globais” vêm contribuindo na preservação de elementos, materiais e  técnicas tradicionais (e locais)? Qual o lugar dos materiais e técnicas construtivas tradicionais em um mundo globalizado? Como as novas tecnologias digitais vêm contribuindo na documentação, análise e conservação/restauração do patrimônio edificado? Como os desafios da sustentabilidade ambiental vêm sendo incorporados no campo da conservação e restauração do patrimônio edificado?

Como os centros de formação e de ensino no campo da conservação e da restauração do patrimônio edificado, em seus diversos níveis (da formação de mão-de-obra aos cursos de especialização e de pós-graduação em restauração, passando pelos cursos de graduação em arquitetura), vem reagindo ao processo de globalização e aos desafios por ele impostos?

 

Importante: As perguntas apresentadas anteriormente têm como objetivo orientar algumas discussões que se pretende promover no evento; os trabalhos submetidos ao ArquiMemória 5, porém, não devem necessariamente responder a uma ou mais dessas perguntas, desde que se atenham ao tema geral do evento.